2014: Aécio reuniu colaboradores que estão discutindo cerca de 35 temas para o plano. São acadêmicos e especialistas divididos em 8 grupos.
A coordenação dos trabalhos está a cargo do ex-governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia (PSDB).
Fonte:
Valor Econômico
Programa de Aécio terá eixo social
O
plano de governo que senador e pré-candidato à
Presidência Aécio Neves (
PSDB-MG) pretende apresentar daqui a um mês dará ênfase a
questões sociais. É uma área que o
PT, da
presidente Dilma Rousseff, sempre usou como uma de suas principais marcas.
Aécio reuniu colaboradores que estão discutindo cerca de 35 temas para o plano. São acadêmicos e especialistas que estão divididos em oito grupos. A coordenação dos trabalhos está a cargo do
ex-governador de Minas Gerais,
Antonio Anastasia (
PSDB).
“O
senador Aécio Neves me deu uma recomendação muito firme, a coluna vertebral é a preocupação com as pessoas, com as políticas sociais”, disse
Anastasia ao Valor Pro, serviço de informações em tempo real do Valor.
Sob acusações do
PT de que haverá uma reversão nas
políticas sociais se o
PSDB voltar ao poder,
Aécio avançou no
Congresso projeto sobre o
Bolsa Família e também já disse ser favorável à atual regra de reajuste do salário mínimo, que agrada à base sindical. Uma das mensagens que os
tucanos pretendem levar ao eleitor – e que aparecerá no plano – é que
Aécio tem a mesma sensibilidade e compromisso sociais atribuídos ao
PT.
Anastasia explica a estratégia dizendo que quando governador de Minas (2003 a 2010), Aécio adotou uma série de programas sociais exitosos. Programas que, segundo ele, “são muito positivos e que demonstram que não é do PT o monopólio das questões sociais”.
A campanha de
Aécio ainda busca burilar iniciativas de outros governos estaduais do
PSDB, das que estão em vigor hoje e também as que foram adotadas no governo
Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), disse
Anastasia.
Aécio Neves cercou-se de vários ex-integrantes do
governo FHC. Entre eles,
Armínio Fraga (ex-presidente do Banco Central),
José Roberto Mendonça de Barros (ex-secretário de Política Econômica), além de
Edmar Bacha (um dos construtores do Plano Real). Os ex-ministros
Barjas Negri (Saúde),
José Carlos Carvalho (Meio Ambiente),
Xico Graziano(chefe do gabinete de FHC),
Rubens Barbosa (Relações Exteriores), também trabalham pela candidatura de
Aécio.
A equipe é constituída também por economistas e acadêmicos de uma geração mais nova, entre os quais
Mansueto Almeida (Ipea) e
Samuel Pessôa (FGV),
Cláudio Beato Filho (UFMG),
André Medici (ex-BID). É uma receita que
Aécio adotou nas disputas em
Minas.
Anastasia não vê no plano de
Aécio um resgate direto de políticas do
governo FHC. “Naturalmente, as políticas que foram do
governo FHC são positivas”, disse. “A maioria delas foi incorporada pelo
PT, o grosso da política econômica, a política que deu origem ao
Bolsa Família. Então há continuidade.”
Perguntado se o plano deve mencionar a necessidade de uma nova fase de
privatizações, uma das marcas da gestão
FHC,
Anastasia diz que aquele modelo ficou para trás. Nas últimas eleições presidenciais, o
PSDB evitou uma defesa clara das
privatizações – sempre criticadas pelo
PT. “A privatização foi um movimento daquele momento”, disse, acrescentando que a melhoria da infraestrutura exige investimentos gigantescos que os tesouros federal, estaduais e municipais não suportam.
“Por isso a importância de melhorar as agências reguladoras, para que haja também a participação do setor privado nessa nova visão de desenvolvimento de infraestrutura. O quadro de hoje não é o da década de 90. Os anos se passaram e agora temos esses novos instrumentos”, diz.
Anastasia, que era vice de
Aécio, foi eleito e no mês passado deixou o cargo para disputar o Senado. Ele aparece como favorito. Entre lideranças do
PSDB mineiro, é visto como futuro ministro-chefe da Casa Civil de
Aécio – uma ‘aberração’ na definição de
Anastasia.
O plano de
governo de Aécio está sendo construído com base em 30 temas. Segundo o ex-governador, esses assuntos são divididos em oito grupos, onde se prepara diagnósticos para as áreas de educação, saúde, segurança, saneamento, recursos hídricos, participação cidadã e
transparência,
combate à pobreza, questões relativas à sustentabilidade e ao meio ambiente, turismo, transporte, econômico, social, relações internacionais, defesa nacional, práticas eficientes de gestão, previdência entre outras. O coordenador dos trabalhos diz que não revela nomes dos que ainda não foram mencionados por
Aécio.
O
ex-jogador Ronaldo que já manifestou apoio à candidatura do tucano talvez venha a contribuir com o plano: “É uma personalidade do esporte, do futebol, e certamente poderá ser ouvido.”
Os colaboradores que integram esses grupos estão concentrados em
Minas,
Rio e
São Paulo, embora haja participantes de outros Estados. No documento não deve haver menção a metas específicas de inflação, câmbio, carga tributária, superávit primário, tampouco onde
Aécio pretende fazer cortes de gastos caso eleito, diz
Anastasia.
“O que vamos ter no plano são a concepção, os princípios e os programas e, vencida a
eleição, vamos objetivar no caso concreto”, disse. Durante a campanha,
Aécio vai apresentar projetos específicos.
Aécio já falou em reduzir o número de ministérios (hoje são 39) à metade, mirar um
superávit primário de 3% (a meta deste ano é 1,9%). Armínio já defendeu a
inflação ao centro da meta, 4,5%, para depois reduzi-la.
Anastasia diz que foi formado também um grupo com ex-integrantes do
governo FHC que estão se dedicando à
política industrial. Recentemente, representantes dos fabricantes de máquinas e equipamentos criticaram declarações de
Aécio e Armínio ao Valor no qual ambos apontaram exageros e erros nos programas federais de subsídios a setores da
economia.
Mas o objetivo, insiste ele, é que o plano não seja uma leitura restrita a economistas, acadêmicos e empresários. “O plano de governo vai se centrar nas questões relativas à preocupação imediata das pessoas.
Saúde, segurança, educação,
combate à pobreza, temas que dizem com mais direção às pessoas”, disse
Anastasia.
A
inflação – que vinha numa toada de aceleração – estará entre esses temas mais sensíveis. “A manutenção do valor da moeda é um princípio que estará lá aplaudido. A questão do custo de vida é tema de preocupação imediata que afeta as pessoas em seu dia a dia e deve ser discutido, mas ainda não está formatado.”
Anastasia, no entanto, não vê a
inflação como o tema que vai aquecer o debate eleitoral este ano. O debate, para ele, será afunilado na segurança pública.
Essa é uma área sobre a qual
Aécio já se pôs num campo distinto do de
Dilma e do pré-candidato do
PSB,
Eduardo Campos: a
maioridade penal. Ele apoia um projeto do senador por São Paulo
Aloysio Nunes Ferreira (
PSDB) que dá a possibilidade de o juiz condenar jovens a partir dos 16 anos que cometem crimes graves a penas tão longas quanto a de maiores de idade.
“Não vou antecipar nada porque ainda estamos redigindo. Mas o núcleo duro na questão é o
combate à impunidade. A impunidade é a raiz. A polícia se desestimula, a sociedade se revolta. E aí começa a justiça com as próprias mãos”, diz.
O grupo de
Aécio defende mudança de legislação. “Há de haver uma reforma legislativa”, diz
Anastasia. Para mudar o quê? “Tornar o processo mais objetivo. Há muita discussão sobre o papel do inquérito. Temos grandes nomes que podem contribuir.”
Um potencial alvo das mudanças é uma
lei federal de 2011 que, nas palavras do político mineiro, deu certa fragilidade às instituições policiais. Refere-se à
Lei 12.403: “Trata do processo penal que não prende as pessoas em determinadas circunstâncias e facilita um pouco a impunidade.”
Anastasia recusa a ideia de que
Aécio será um candidato para agradar setores conservadores. “Em primeiro lugar, a preocupação que ele me dirigiu e eu tenho repetido isso a todos é a preocupação com as pessoas, principalmente com os mais desfavorecidos”.